quinta-feira, março 03, 2011

Ao Saudoso Vô Vito

O seu corpo expressava detalhadamente as marcas de um homem que não costumava lutar por sua própria vida. A infância daquela época ensinou-lhe a ser durão. Sem qualquer diploma ou dom invejável, aquele homem passou a vida adulta acreditando que os bichos combinados com números poderiam trazer-lhe sorte ou riqueza repentina. 
Era um sonhador, de fato, mas não fazia questão de alarmar. A maioria dos seus sonhos eram construídos através daquela velha janela, onde ele passava  horas observando a vida que esvaia-se aos poucos e levava consigo uma juventude. 
Eu fui crescendo, mas não me cansava de ir até sua casa visitá-lo, fazer um café, puxar uma cadeira e sentar na sala gastando longos e duradouros minutos conversando com ele sobre suas aventuras de menino, adorava quando ele trazia da memória o dia em que se apaixonou por minha avó. Sentíamos juntos a falta que ela nos fazia. 
Aquele senhor teimoso foi hospedar-se alguns dias na minha casa, eu gostei da ideia de tê-lo por perto a cada manhã. Pedia a sua bênção e ia à algum destino. 
Descobrimos que o seu corpo já não era tão forte, logo as doenças da sua idade começaram a desenvolver-se, maltratando sem piedade a vida do meu velho. Era domingo quando as dores começaram a ser excruciante. A sensação de incapacidade tomou conta de mim, ver uma das pessoas que eu mais amava sofrendo e eu não podia fazer nada. Falei com Deus, pedi que dissipasse todo o sofrimento que meu avô sentia, mas Ele não respondeu-me. 
Como se meu avô fosse uma criança, comecei a acariciar-lhes os cabelos, massagiando sua orelhas e comparando o tamanho de nossas mãos, tínhamos os mesmos dedos finos e compridos.
No dia seguinte, subitamente, levaram-o da minha vida, sem ao menos esperar que nos despedíssemos devidamente.
Nunca mais conversas ao fim de tarde, abraços de afago, nem tentativas frustradas de um passeio na praia.
Nunca mais em si.
Nunca mais em nós. 
Nunca mais Vovô. 


"Hey Thaís, traz um golinho de café pra mim, por favor. Não muito, só um golinho!" 

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